• Quem é Renata Souza

    Como militante dos direitos humanos e cria da Maré, minha trajetória se confunde à luta pela vida na própria Maré e se enraíza em outras favelas do Rio de Janeiro. Com o assassinato de Renan da Costa, de 3 anos, em outubro de 2006, filho de minha ex-cunhada, a militância ganhou novo significado e rumo. O luto transformado em luta é uma constante para nós que vivemos em favelas e periferias. E não foi diferente na minha vida, já que a sucessão de casos igualmente brutais não me deixou descansar. Por isso, a pauta da Segurança Pública ganha centralidade nas ações em que me envolvi desde então, seja na militância nos movimentos sociais, na política partidária e na universidade, já que pensar em uma política pública de Segurança deve primar pela defesa intransigente do direito à vida.

    Como comunicadora popular atuei, por mais de 15 anos, em diferentes favelas, para inserir a luta em defesa da vida na pauta da comunicação comunitária. Além disso, me dediquei enquanto jornalista, formada pela PUC-Rio, em 2007, a furar o bloqueio da mídia tradicional e humanizar a cobertura dos casos de violência praticada pelo Estado. Isso porque a vítima é muitas vezes criminalizada, a partir das manchetes midiáticas, quando é negra, pobre e favelada. Uma articulação é necessária para que o debate público, viabilizado com prioridade pelos movimentos sociais de favelas e direitos humanos, ganhe as capas de jornais com a visibilidade e qualidade de que carecem.

    A universidade também é uma das minhas trincheiras de luta. Sendo uma mulher, negra, feminista, favelada e intelectual, ultrapassar o machismo, racismo e classismo exigiu reconhecimento de minha condição na sociedade. Por isso, percebi que estar dentro de um espaço de construção e compartilhamento de conhecimento deve servir para a transformação social. Busquei unir militância, reflexão teórica e responsabilidade social ao defender a tese de doutorado na UFRJ, em 2017, cujo o título não deixa dúvidas: “O Comum e Rua: Resistência da Juventude Frente à Militarização da Vida na Maré”. A militarização do nosso cotidiano nos mata pouco a pouco, seja pelo adoecimento psicológico das pessoas submetidas a uma rotina de barbárie ou pela matança sistemática dos nossos familiares, amigos e vizinhos. Sempre mais um de nós. Não podemos aceitar e nos calar. A vida parece não ter valor, como nos demonstrou a execução sumária de Marielle e Anderson. Se algo assim ocorre com uma parlamentar, toda a sociedade e a democracia estão ameaçadas.

    Ao lado de Marielle Franco, amiga e companheira de militância desde 2000, quando fizemos pré-vestibular comunitário juntas e não nos largamos mais, atuei na consolidação de um mandato fundamental para o Rio de Janeiro e quiçá para o Brasil, para a luta pelos direitos humanos, com o deputado estadual Marcelo Freixo por 10 anos. Na vitoriosa campanha de Mari até sua vereança na Câmara Municipal, desempenhei a função de chefe de gabinete, cargo da mais alta confiança e responsabilidade política. Como uma das sementes de Marielle, em que pese a decisão tão difícil no âmbito pessoal, de militância e política, me colocar à disposição de uma disputa eleitoral tão incerta e tão dolorida é apostar no bem comum e dar sequência à luta contra as desigualdades sociais.

    Se há algo que me inspira é fazer parte de uma chapa de pré-candidaturas tão legítimas e valorosas que está surgindo no bojo das muitas “Marielles” e “Mulheres na Política”, gestada pela própria Mari ainda em vida. Há um fio de esperança na ousadia e força das mulheres negras e feministas inseridas na política qualificada, além do conhecimento e experiência tão necessários para o cotidiano de uma Casa Legislativa. Como irmãs vamos falar mais alto contra qualquer forma de violência contra as mulheres, negras e negros, moradores de favela, LGBTTs. Se a luta contra as desigualdades custou a vida da Mari, será através dessa mesma luta que nos tornaremos muitas. Muitas pelo sorriso dela, pelas gargalhadas, pelas unhas pintadas de cores diferentes, por sua coroa que iluminava quem estava a sua volta. Mas muitas, muitas, pela diversidade e pela coragem de lutar contra o extermínio da população negra, pobre, favelada e periférica, por uma sociedade mais justa e inclusiva. Uma sobe e puxa a outra, como bem nos ensinou Marielle. Seguimos com o seu lema da filosofia africana Ubuntu: “Eu Sou Porque Nós Somos”.

    Brotarão flores no asfalto nessa primavera, porque expressamos mais que uma utopia, uma política real, afetiva e efetiva. Vamos junt@s!

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