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Vilma Reis: Ouço que a esquerda deve voltar para a base. Nós, mulheres negras, vivemos na base

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As histórias que a história não conta, evocadas pelo Samba da Mangueira 2019 e apresentadas na voz da cantora Marina Iris, eram para ser uma espécie de pontapé inicial de uma das mesas de abertura do Fórum de Resistência Democrática, cujo tema era "Gênero, raça e classe". Mas foi mais. Representou, na verdade, um passe de letra para o desenrolar de uma fala certeira da pré-candidata à prefeitura de Salvador Vilma Reis. Reivindicando justamente que as narrativas e vivências das mulheres negras sejam respeitadas e reverberadas, a socióloga e defensora de direitos humanos soteropolitana foi ao ponto: "Ouço que a esquerda deve voltar para a base. Nós, mulheres negras, vivemos na base".

Aplaudida de pé por uma plateia que lotou o auditório da Cândido Mendes, Vilma, ao falar sobre sua pré-candidatura e a conjuntura política atual, revisitou dores e, a partir de uma perspectiva histórica, apontou com firmeza para o futuro: "A gente chega pra dizer que nossa presença [nos espaços de poder] é pedagógica. Mas apesar de pedagógica, não é uma presença mansa. Não cabe presença negra mansa em cenários violentamente controlados pelo racismo. Lembrando Erica Malunguinho, afirmo que o tempo é de reintegração de posse e o povo negro não vai recuar. Pra terminar, cito, aqui, o conceito de feminicídio político, que Renata Souza vem trabalhando com muita força, para lembrar que essas mortes políticas, que vêm de muito longe, precisam ser respondidas com a nossa resistência. Foi um feminicídio político que nos tirou Marielle Franco".

Complementando a fala da companheira, a deputada estadual Renata Souza (PSOL), que também integrava a mesa, lançou para o público uma provocação:

- O que não é classificado, categorizado ou caracterizado não existe nessa sociedade. Eu tenho certeza de que o conceito de feminicídio político, se tivesse sido apresentado por um homem branco do Direito, já estaria na boca de todos aqui. Porque o epistemicídio é óbvio no que diz respeito à produção de conhecimento da mulher preta. Conhecimento que vem a partir da realidade concreta, da vivência real da violência", argumentou.

E seguiu: "Temos que falar da esquerda porque é esse o lugar que tem compromisso com a gente. A esquerda tem o desafio, na costura política, de pensar formas de fazer com o povo periférico, em vez de fazer para o povo periférico".

Em sua conclusão, Renata abriu caminho para a apresentação da cantora, compositora e militante feminista Doralyce: "Quando pensamos essa mesa, levamos em conta o quanto que o encantamento, a linguagem, as formas de manifestar o pensamento precisam ser múltiplas para a transformação social. A música faz vibrar a alma".

E assim como definiu a deputada, encanto e vibração deram o tom do encerramento do debate. As pautas levantadas no encontro ganharam melodia nos versos trazidos pela cantora e arrebataram a plateia. "Sou uma preta em movimento / Derretendo as estruturas / Sou mulher que não se cala / Minha bala é feito agulha / Sou palavra e movimento / Eu sou bambu cortando o vento / Yabá tecendo seu detino / Raio que corta o céu / Eu revelo num papel: o futuro que me aguarda é lindo", cantou Doralyce.

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