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Angela Davis evoca justiça para Marielle Franco em sua primeira passagem pelo Rio

Ativista negra fez conferência para 600 pessoas no Odeon na noite de quarta-feira (23). Morte de ex-vereadora e situação política brasileira foram temas.

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Na primeira passagem pelo Rio de Janeiro, a ativista americana Angela Davis falou para um público majoritariamente feminino, negro e jovem, que lotou os 600 lugares da sala do cinema Odeon, no Centro, na noite desta quarta-feira (23). Muitos assistiram da praça em frente num telão.

Em um discurso em que a vereadora Marielle Franco foi tema recorrente, Angela foi acompanhada atentamente e ovacionada pelo público, no evento que marcou a abertura do 12º Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul.

A emblemática Pantera Negra, que está em passagem pelo Brasil para a divulgação do livro "Uma autobiografia" (Editora Boitempo), recebeu da deputada Renata Souza (Psol) e de Luyara Franco, filha de Marielle Franco, a medalha Tiradentes, maior honraria do Estado do RJ.

Angela Davis recebeu Medalha Tiradentes de Luyara Franco, filha de Marielle, e de Renata Souza, deputada do Psol — Foto: Caio Oliveira

"Minha mãe dizia que ‘eu sou porque nós somos’. Eu costumo dizer que somos resistência porque ela foi luta. Que a gente se junte para vencer a barbárie", disse Luyara na entrega da medalha.

Foi a vez, então, de Angela, feminista, filósofa e professora, entre outros títulos, tomar a palavra para a conferência "A liberdade é uma luta constante", que contou ainda com a jornalista Flávia Oliveira, da GloboNews, e a escritora Conceição Evaristo.

'O Rio de Janeiro é a cidade de Marielle Franco'

Ela afirmou que o Rio de Janeiro esteve em seu imaginário por muito tempo pelo carnaval, o Pão de Açúcar, Copacabana e a Garota de Ipanema. Mas também pela vida das pessoas nas favelas, com a qual disse se identificar.

“O Rio de Janeiro, essa cidade espetacularmente bonita é, em primeiro lugar, a cidade de Marielle Franco”, ponderou.

Angela citou a vereadora morta em março do ano passado diversas vezes - e teve suas falas recebidas com gritos de "Marielle Presente".

"Eu quero me juntar à família de Marielle (no coro) de saber quem foi que mandou matar Marielle, mas mais importante do que isso: nós queremos que essas pessoas saibam que, se pensaram que se esse ato iria intimidar os que lutam contra o racismo, a homofobia, a luta contra a militarização da polícia, a luta dos sem-terra, eles tão absolutamente errados", afirmou.

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Angela Davis fala em conferência no Rio na noite de quarta-feira

A ativista também falou do presidente Jair Bolsonaro, sem citá-lo nominalmente, e lembrou ainda da prisão do ex-presidente Lula.

"Nós não evocamos seu nome porque dar um nome confere reconhecimento e gera poder, mas eu sei que há aqueles e aquelas que se referem a ele como 'o coiso' e que as pessoas ao redor do mundo sabem o significado de 'Ele não'. (...) Lula pode estar preso, mas ele não desistiu. Lula livre", disse ela, que foi aplaudida.

Fora do cinema, público acompanhou em telão

Do lado de fora do Odeon, cerca de 500 pessoas que não conseguiram uma das senhas, que foram distribuídas gratuitamente online, ficaram em frente ao cinema na Cinelândia, assistindo à conferência em um telão montado. Era forte a presença do público LGBT.

Aos 29 anos, a produtora Ana Carolina Lourenço, que acompanhava do lado de fora, explicou por que acredita que Angela segue, desde os anos 60, sendo uma voz tão relevante dentro do ativismo.

"Ela antecipou uma série de debates que mostram a importância de intersecções entre gênero, raça, classe, geopolítica, e ela fez isso de forma muito avançada nos anos 70. Esse debate se tornou absolutamente pertinente no contexto atual. As mesmas questões de avanço do conservadorismo voltam, agora, em uma nova roupagem. Ela fala muito para o contexto brasileiro", opinou.

Mulheres Panteras Negras foram assistir a conferência de Angela Davis — Foto: Elisa Soupin

Participante do grupo Mulheres Panteras Negras Rio de Janeiro, que sempre participa de eventos de rua representando a luta feminista antirracista, a poeta Gênesis, de 33 anos, afirmou que Angela representa um pedaço vivo da história da luta por direitos.

"Ela representa um passado de luta, é uma referência viva. Como pessoas negras, que temos a toda hora o futuro ceifado, quando a gente vê uma intelectual negra que passou tudo o que ela passou, resistindo e ainda construindo tanto, é uma inspiração", afirmou Gênesis, de 33 anos.

 

G1

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