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“Sucesso para governador do Rio é corpo espalhado pelo chão”, diz deputada Renata Souza

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O jornalista Guilherme Henrique entrevistou a deputada Renata Souza na Deutsche-Welle Brasil.

(…)

Do ponto de vista da segurança pública, como você vê os planos do atual governo?

O Instituto de Segurança Pública apresentou um relatório que mostra o aumento da letalidade policial. Apenas no 1 trimestre, são 434 mortes, um número elevadíssimo, e que bate recorde na série história de 21 anos. Estamos vendo o governador aplicando uma política pública que é equivocada na sua essência, porque ele aumenta o nível de confronto, sem pensar no que pode ser uma política de prevenção ou no investimento em inteligência. O nível de sucesso e de qualidade que o Witzel utiliza é o número de corpos espalhados pelo chão, e isso é muito grave.

Tivemos dois casos emblemáticos que marcaram esses primeiros meses de do ano: os 200 tiros no carro do músico Evaldo de Souza e a morte do professor de Jiu-Jitsu Jean Rodrigo. A partir dessas duas mortes, qual análise pode ser feita pela ótica dos direitos humanos?

Há um impacto do discurso de que tipo de segurança pública deve ser aplicado no Rio de Janeiro. No ano passado, estávamos inseridos na GLO (Garantia de Lei da Ordem) e no papel que os militares tinham a cumprir como parte do policiamento. Quando não há isso e militares se sentem legitimados a fuzilar um carro, em um domingo de sol, temos concretamente o discurso do governador e do presidente da República colocado em prática. “Viu qualquer tipo de situação suspeita, atire para matar”, e foi isso que eles fizeram. Existe uma atmosfera no Rio de Janeiro de atirar primeiro e perguntar depois. Talvez o pergunte depois nem esteja sendo mais utilizado. O caso do Jean é uma triste realidade. Jovem, negro, morador de favela e periferia. De cada dez homicídios no Rio de Janeiro, sete são jovens com esse perfil. O que há em curso é um racismo estrutural e estruturante, que vê na periferia e no corpo negro um inimigo a ser eliminado.

Mais de um ano após a morte de Marielle Franco, como você analisa o legado dela na política institucional do Rio de Janeiro?

É muito simbólico que 14 meses sem resposta sobre o mandante da morte da Marielle, eu, que fui chefe de gabinete dela, também sofra tentativas de interrupção do meu mandato. Não com a violência e a agressividade de uma execução sumária. Mas, assim como Marielle, também coloco temas dentro da Alerj que dizem respeito à dignidade humana daqueles que mais sofrem e morrem. Todo debate sobre desigualdade social incomoda, principalmente essa estrutura de podres poderes que no Rio de Janeiro é muito afinada com estruturas mafiosas

Você tem sofrido ameaças desde que assumiu o cargo de deputada? Sente algum medo?

Nunca recebi nenhuma ligação, e-mail, nada disso. Mas, ainda que não haja ameaça contra a mim, fico preocupada, porque a Marielle também não teve nenhuma ameaça, e isso abriu uma nova perspectiva do que é atuação parlamentar de pessoas que defendem o direito à vida neste país. O Brasil é o país que mais mata defensores dos direitos humanos, seja no parlamento, como no caso da Marielle, ou em ativistas, como a Dorothy Stang.

Tenho dito que o caso da Marielle foi um feminicídio político: uma mulher que estava na linha de frente e é assassinada. Mulheres nesses lugares estão expostas a todo momento. Estou alerta e tomando medidas de segurança física, para que nós não tenhamos mártires. Não precisamos disso e não quero estampar uma camiseta ou um broche. Quero permanecer viva e seguir lutando contra a desigualdade social, o machismo e a LGTFobia.

 

DCM

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